sábado, 1 de agosto de 2009

Tessitura poética

Dize-me: o que é o amor?

O amor: é destino.
É acontecer sem ensejo;
é manifesto incorpóreo
do destilado orgânico químico.

É incerto destino
do bem querer e desejo,
sem lavor maquínico
do estrato corpóreo.

É subversão da consciência
no ardor passional do cupido,
e plasmado cume da libido.

Quando tudo e nada tem sentido
é perene e sanguínea ardência
a levar razão e coração à falência.

sábado, 25 de julho de 2009

Tessitura poética

Sempre foi mais

Não foi repouso
o pouso do beijo
nos lábios de Jandira.

Rosados,
úmidos,
entreabertos ao fim de dizer-me:
- “Beija-me.”

O pouso do beijo
nos lábios de Jacira
foi mais, mais, mais...
perdição nos tremores do gozo.

Rosados lábios carnais
entreabertos ao final de dizer-me:
- “Tenha-me.”

Não foi repouso o beijo
nos lábios de Jandira,
nem repouso foi beijar
os lábios rosados de Jacira.

Nos lábios de Jacira e de Jandira,
rosados, úmidos e carnais,
tudo sempre foi mais, mais, e mais...

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Tessitura poética

Da poesia

Disse-me um jovem,
ser, a poesia,
coisa chata escrita em verso.
Coitado,
mal humorado,
sequer prosa lia.

Importa pra mim, eu dizia,
ser, a poesia:
o trem,
o carro e a carroça de outrora,
ou, muito HP a mil por hora
no hidramático de agora.

É barco e navio transatlântico,
até mesmo canoa furada
no escrever romântico;
ou, pipa alada
ao vento semântico.

Às vezes, é tronco tosco
e deslizante,
ou, preso no enrosco
de algum significante.
É avião teco-teco,
ou bólido esvoaçante;
até nave estelar teleportante
deste poeta, pela alma um viajante.

As viagens, dizia eu,
feitas com a poesia,
pra mais de cem,
tumultuadas sempre,
às vezes zen,
talvez rimadas com desdém,
ou proseadas, se me convém,
é tudo o que importa
para uma alma torta,
mas, que não está morta.

sábado, 11 de julho de 2009

Tessitura poética

Do olhar de quem me ame.


Olhe para mim:
o que vês?

Meus olhos,
que mergulham nos teus,
vasculham tua alma,
e cintilam contentamentos;
veem espelhados como meus
todos os sentimentos teus.

Meu olfato é cativo
das fragrâncias
que de ti se elevam;
dilatam-se minhas narinas,
sugam o nunca rarefeito
ar que vem de ti.

Que digo eu?...
neste fiapo do tempo
que me enreda
nos teus braços
perdendo-me da razão?

Olhe para mim:
o que vês?

Eu,
dilacerado pelo fio do tempo
que me descaminha,
fragmentado
em partículas que respiram por ti,
atmosfera que és
da minha existência,
amada minha.

sábado, 27 de junho de 2009

Tessitura poética

Selo de morte de um amor

- Ordinária! – disse-lhe seu homem.
O tapa na cara
fê-la ir do espanto
ao pranto.
E as mãos que cobriram o rosto,
de vergonha,
também do amor foram mortalha.

Passado o turbilhão da ira,
quis saber o que fizera.
Seu homem, consumido em ciúme,
olhar e sorrir para outro a vira.

Trazida da memória a circunstância,
tudo remontou à infância.
Lá prometera: um primeiro tapa,
também o último seria,
o drama da mãe, não repetiria.

Olhara, sim,
mas ao vazio o olhar dirigira.
E para si mesma então sorrira.
Descobrira, enfim,
onde e como ao seu homem diria,
que em seu ventre o filho trazia.

Houve súplicas,
implorado o perdão.
Isso jamais repetiria.

O amor vivido com paixão,
no peito sucumbiu à razão.
E para sempre,
o selo de um tapa,
ao querido amor deu um fim.

sábado, 20 de junho de 2009

Tessitura poética

Do inexplicável tempo

Perguntas-me o que é o tempo.
Prudente dizer é: não sei.
Pondere! Dele subtrai-se a lei:
de tudo é edificador;
é cinzel e martelo do criador.

Também, que é chronos,
mito que a tudo devora,
transmuda o presente em outrora,
o devir torna inseguro,
e incerto oráculo o futuro.

A tudo conduz à ruína,
mesmo à pena que a tudo valha,
por ter chronos a eterna sina
de ser promessa e também mortalha.

Do tempo tudo e nada se pergunta,
e tem-se dele a certeza de que apenas É,
e que a tudo separa e junta,
nas reveladas somas sustentadas pela fé.