quinta-feira, 16 de julho de 2009

Tessitura poética

Da poesia

Disse-me um jovem,
ser, a poesia,
coisa chata escrita em verso.
Coitado,
mal humorado,
sequer prosa lia.

Importa pra mim, eu dizia,
ser, a poesia:
o trem,
o carro e a carroça de outrora,
ou, muito HP a mil por hora
no hidramático de agora.

É barco e navio transatlântico,
até mesmo canoa furada
no escrever romântico;
ou, pipa alada
ao vento semântico.

Às vezes, é tronco tosco
e deslizante,
ou, preso no enrosco
de algum significante.
É avião teco-teco,
ou bólido esvoaçante;
até nave estelar teleportante
deste poeta, pela alma um viajante.

As viagens, dizia eu,
feitas com a poesia,
pra mais de cem,
tumultuadas sempre,
às vezes zen,
talvez rimadas com desdém,
ou proseadas, se me convém,
é tudo o que importa
para uma alma torta,
mas, que não está morta.

sábado, 11 de julho de 2009

Tessitura poética

Do olhar de quem me ame.


Olhe para mim:
o que vês?

Meus olhos,
que mergulham nos teus,
vasculham tua alma,
e cintilam contentamentos;
veem espelhados como meus
todos os sentimentos teus.

Meu olfato é cativo
das fragrâncias
que de ti se elevam;
dilatam-se minhas narinas,
sugam o nunca rarefeito
ar que vem de ti.

Que digo eu?...
neste fiapo do tempo
que me enreda
nos teus braços
perdendo-me da razão?

Olhe para mim:
o que vês?

Eu,
dilacerado pelo fio do tempo
que me descaminha,
fragmentado
em partículas que respiram por ti,
atmosfera que és
da minha existência,
amada minha.

sábado, 27 de junho de 2009

Tessitura poética

Selo de morte de um amor

- Ordinária! – disse-lhe seu homem.
O tapa na cara
fê-la ir do espanto
ao pranto.
E as mãos que cobriram o rosto,
de vergonha,
também do amor foram mortalha.

Passado o turbilhão da ira,
quis saber o que fizera.
Seu homem, consumido em ciúme,
olhar e sorrir para outro a vira.

Trazida da memória a circunstância,
tudo remontou à infância.
Lá prometera: um primeiro tapa,
também o último seria,
o drama da mãe, não repetiria.

Olhara, sim,
mas ao vazio o olhar dirigira.
E para si mesma então sorrira.
Descobrira, enfim,
onde e como ao seu homem diria,
que em seu ventre o filho trazia.

Houve súplicas,
implorado o perdão.
Isso jamais repetiria.

O amor vivido com paixão,
no peito sucumbiu à razão.
E para sempre,
o selo de um tapa,
ao querido amor deu um fim.

sábado, 20 de junho de 2009

Tessitura poética

Do inexplicável tempo

Perguntas-me o que é o tempo.
Prudente dizer é: não sei.
Pondere! Dele subtrai-se a lei:
de tudo é edificador;
é cinzel e martelo do criador.

Também, que é chronos,
mito que a tudo devora,
transmuda o presente em outrora,
o devir torna inseguro,
e incerto oráculo o futuro.

A tudo conduz à ruína,
mesmo à pena que a tudo valha,
por ter chronos a eterna sina
de ser promessa e também mortalha.

Do tempo tudo e nada se pergunta,
e tem-se dele a certeza de que apenas É,
e que a tudo separa e junta,
nas reveladas somas sustentadas pela fé.

sábado, 13 de junho de 2009

Tessitura poética

Diálogos poéticos

Sempre há prelúdios
do delicado amor,
engastados que são
na estriada curvatura do tempo.

O amor é eterno
por quanto tempo que dure,
se não for desperdiçado.
E se algum amor
não for correspondido,
que não haja coração despedaçado,
pois que outro amor terá surgido,
e outro coração será abraçado.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Tessitura poética

Ouça! É um grito!



Quem?!

Quem está aí?

Deus! Quem ouvirá o grito,

medonho no desespero,

que não ecoa,

que não vaza

as paredes frias do granito!


Quem?!

Quem está aí?

Deus! Quem será o fulcro,

a elevar da tumba,

aquele que medra no sepulcro!


Deus!

Quem moverá os fios.

Quem moverá a lápide.

Quem resgatará dentre

os corpos frios,

o refém da morte.


Deus!

Quem responderá ao grito,

ao último apelo aflito,

que não ecoa e não vaza

em torvelinho infinito.


Deus!?

Estas aí?

Ouça! É um grito!

O grito...

por demais aflito...

Deus!?