
(parte 8)
Uma boa parte da tarde Leonor ficara de olho na estrada, ansiosa pela nossa chegada. Não conformada com a espera, dirigiu-se até a porteira. Esta estava aberta por causa dos convidados que chegavam. Os animais que ocupavam esse pasto foram transferidos para outro lugar. Assim, quando surgimos na curva da estrada, Leonor nos acenou e correu ao nosso encontro. Meu pai, diligente, parou a carroça para que eu descesse. Corri ao seu encontro. Confesso, havia sentido saudade dessa menina tão meiga, amiga dedicada. Quando nos alcançou, papai parou a carroça. Leonor – sempre ela – agradeceu e dispensou a carona. Iríamos a pé, disse ela, para aproveitarmos ao máximo o restante da tarde. Foi um reencontro feliz, alegre.
Chegamos às casas e Leonor quis mostrar-me o que estava preparado e em preparo. Havia um movimento febril, muitas pessoas desconhecidas, e todas prontas a ajudar em alguma coisa. Logo, meu pai já estava se dedicando à sua tarefa de orientar o preparo dos temperos e das carnes. Por tudo que eu via, esta, sem dúvida, seria uma das maiores festas que eu fora. Tudo girava em torno da alegria, da animação. Havia música no ar. Um trabalho inebriante. O jantar dessa sexta-feira já estava sendo preparado, quase que uma festa, e seria logo servido. Assim, os adultos teriam tempo para fazer ainda algo mais num espaço da noite.
O tempo correu célere, pois havia muita gente para conhecer, tanta coisa para ver. Leonor me acompanhava, e mostrava-me, entusiasmada, os preparativos para a festa maior. Havia tanta gente que, nós, crianças, estávamos dispensados de ajudar em algo. Grupos barulhentos de crianças se ocupavam, então, das mais variadas brincadeiras. Algumas moças também; entre elas a noiva, muito linda, simpática.
Chegado o momento do sono, cada qual se acomodava onde podia. Era como um grande acampamento, e havia uma harmoniosa descontração. Nós, as crianças, ocupamos um galpão que nos foi reservado. Como cama havia de tudo: pelegos, mantas, colchões emprestados por vizinhos, e isso contribuía para nossa felicidade: estarmos juntos. Simples felicidade.
A madrugada chegou, e com ela o retorno da faina. Quando acordamos, muitos adultos já se ocupavam das suas tarefas. Aves e outros animais eram abatidos e preparados. Havia muito trabalho, mas, acima de tudo, uma alegria quase que mística.
No ar pairava o delicioso aroma do café recém coado; o odor do leite fresco, já fervido, instigava o nosso primeiro apetite do dia. Pães eram retirados quentinhos do forno; isso se misturava aos odores dos temperos num belo convite à vida. Nem sabíamos a que horas os adultos haviam levantado para preparar essa profusão de coisas que já estavam prontas.
Terminado o café, fomos conferir as comidas que estavam sendo preparadas. Alguns homens e mulheres ajudavam meu pai no preparo das variedades de carnes que ainda seriam assadas. Logo, novamente, havia música no ar.
A um dado momento, Leonor se afastou. Quando retornou algum tempo depois, trazia um grosso volume de revistas variadas. Estas haviam sido trazidas pela família da noiva. Deu-me parte delas e pediu-me que a acompanhasse. Pelo rumo que tomamos, logo percebi para onde iríamos. Antes, porém, ela pegou dois pelegos macios, e nos encaminhamos para o seu lugar predileto, no alto da velha mangueira. Lá chegados, uma surpresa. Leonor, lembrando-se do desconforto que passara da vez em que lá estivemos havia providenciado algo com a ajuda de alguns pedaços de tábua. Ali estava a engenhosidade da minha amiga. Segundo ela, estudara com muito cuidado o que fazer e, por final, fez surgir um confortável banco. Ali ela se ajeitou, forrando-o com um dos pelegos. Antes, havia arrumado o pelego naquele que era o seu lugar preferido, onde indicou que eu me sentasse. Ali sentei-me, e o ambiente ficou admiravelmente aconchegante. Estávamos prontos para mais uma das nossas aventuras.
sexta-feira, 11 de agosto de 2006
Chronos, devorador de vidas e de sonhos - 8
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efvilha
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sexta-feira, agosto 11, 2006
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Tessitura em tela
Mutações (2005)
O.S.T. 50x70cm
No tempo, e pelo tempo, o tráfego de todas as mutações.
O branco tinge-se de tinto: taça de vinho; tinto de sangue?
Nos centímetros quadrados da Hera, os signos de uma existência efêmera.
Signos de uma linguagem.
Signos na folhagem.
Signos nas nuances do arco-íris: enredos de todas as vidas... de todas as vidas... de todas... que escapam ao espaço... e o espaço, tão efêmero. E o que resta, se não um indicador qualquer.
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quinta-feira, 10 de agosto de 2006
Tessitura poética

Limbos do desejo
O vício,
do sonho.
Divagar!
Que te impede voar?
Serão as asas que te faltam
ao alado desejo?
Sonhas voar
a alado feito,
quando a alma almeja
aos altos chegar.
Nega-te.
Não seres alado ser,
a erguer em vôo,
teu corpo inerte...
Mulher!
Tua alma...
que almeje voar.
Teu corpo,...
Que se espoje na clara lama
Do desejo... e
Te leve... leve a voar.
No sonho.
No vício... no gozo,
ali aportar!
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efvilha
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quinta-feira, agosto 10, 2006
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domingo, 30 de julho de 2006
Expectativas!!!
Ainda não pode haver um... Ufa!, de alívio.
Nesta semana, depois de resolvidos alguns impasses, inclusive uma teimosa e indisfarçada displicência minha, consegui enviar para a Bia, minha orientadora, o esboço da minha Tese para que ela faça suas observações e, depois, protocolá-la para a Banca de Qualificação.
É uma tremenda corrida contra o tempo.
A semana que vem, toda ela será dedicada à preparação da apresentação à Banca - terei 30 minutos para isso, isto é, a apresentação para a Banca. Devo fazer num suporte midiático, com imagens, texto, som e, acima de tudo, incluir a minha performance - dizer à Banca a que eu vim.
Pois é! Como diz a Bia - eu aqui repito -: "Há muito bolo e pouco glassê".
Essa falta de tempo me impede de visitar os muitos blogs interessantes que estão por aí.
Inclusive dar mais atenção a este meu.
Além disso, há outras coisas. Por exemplo: minha esposa acaba de me chamar para comer tapioca quentinha que ela está preparando; e o cheiro de café recém passado está esticando meu nariz.
Então... vou nessa.
Até!
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domingo, julho 30, 2006
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sexta-feira, 28 de julho de 2006
Apresentando um amigo - 3
(parte 3)
Até que, enfim, falemos dessa figura aí ao lado, que não está dormindo: está “pensando”.
Deve ser um filósofo canino.
Nasceu em 17 de outubro de 2003, em Toledo, cidade que fica a 35 quilômetros distante daqui. Veio de uma prole de oito filhotes. Sua mãe, a Costelinha, apesar do nome, tem pedigree Dachshunds. Mesmo sob o “peso” do pedigree, até hoje ela não conseguiu explicar como ficou prenha, e nem apresentar o felizardo cão que a seduziu. Ela vivia, e vive, num quintal fechado por grades, do qual não pode sair a não ser sob a vigilância de uma das suas donas. Mesmo com as grades, não se sabe como, um dia ela demonstrou estar prenha. Não chegou a ser um escândalo, apenas um mistério.
Suas donas, naquela época, viviam numa casa bem em frente da Faculdade na qual minha filha estudava. Eram, e são, amigas.
Com o inesperado “caso” da Costelinha, logo houve a preocupação de ver com quem ficaria cada um dos seus filhotes, presumivelmente “bastardos”, ou melhor, sem o vínculo do pedigree; motivo pelo qual não seria recomendável tentar a venda dos mesmos. À minha filha foi prometido um machinho. Ela nos deu a notícia da “gravidez” da Costelinha, e o aviso de que um dos filhotes viria para casa. Hummm! E esse “Hummm” foi geral em casa.
Chegou o grande dia, nasceram, e houve a partir daí a distribuição dos filhotes. Diz minha filha, que ela não o escolheu, que foi escolhida por ele. Acreditamos. E disse até, que já tinha um nome.
A Costelinha é paparicada por muita gente. Sua donas, universitárias, cuja família mora em Santa Catarina, têm um extenso rol de amigos, também jovens universitários, que fazem da sua casa um ponto de muitos, cordiais e descontraídos encontros. Então, foi assim que o nome de cada filhote foi plenariamente discutido. Ao figura aí ao lado foi apresentada uma lista de sugestões; até nomes próprios de pessoas surgiram. Tantos foram que mais dúvidas surgiam por qual optar, dizia minha filha. Até que, a partir de um nome sugerido, ela escolheu apenas a primeira sílaba, nos disse.
Mô. Isso mesmo: Mô!. Esse é o seu nome.
Quando minha filha nos deu a notícia da escolha, e do nome que lhe havia dado, eu, prontamente, torci o nariz e disse ter entendido tudo. Que Mô seria apenas a abreviação de “Morto de fome”. Riu, e disse que não, que iria cuidar bem dele, que era uma gracinha. Céus! Qual cãozinho ou bichano não é uma gracinha quando novo, não? Outros animais também o são, mas, quando crescem?!
Concordado, está concordado. O jeito era esperar o bichinho ser desmamado e vê-lo se apresentar para a família, isto é, sua matilha.
Chegou, afinal, o grande dia. Eu precisava mesmo ir a Toledo. Então, ficou combinado que eu passaria na “casa” da Costelinha para trazer o Mô para sua nova moradia, isto é, para a sua nova matilha. Minha filha lá estaria me esperando.
Quando lá cheguei, logo fui apresentado a uma coisa fofa que ela trazia nas mãos. Uma lindeza, mas, “algo” esquisito pairava no ar. Ela me disse que aquele não era o Mô, que eu certamente havia passado por ele, que se encontrava dando uma voltinha pelo quintal. Ela estava me apresentando a Belinha; esse era o nome da coisa fofa em suas mãos. E me explicou.
O rapaz que ia ficar com a Belinha, nesse espaço de tempo teve que se mudar, e o lugar onde morava agora não oferecia condições para criar um animalzinho. E mais, dizia ela: dentre os filhotes, os dois haviam criado uma forte “amizade”: o Mô e a Belinha. Eram inseparáveis, dizia.
Fui ver o Mô, imaginando que poderia influenciar na escolha de um dos dois. Não, não que eu não tenha percebido desde o primeiro instante. Viriam os dois para casa: essa era a real questão. Não foi difícil encontrar o Mô, que dava suas trôpegas corridinhas pelo quintal, como que a despedir-se dele. Danadinho! Sabia que viria para casa e, de lambuja, traria seu melhor brinquedo – depois veríamos que não -, a irmãzinha preferida.
Claro! Tentei meter a minha esposa no meio, se ela não deveria ser consultada antes. Filhos!!! Quem os têm sabe quão persuasivos são. Minutos depois éramos quatro na viagem em direção à nossa casa: dois humanos e dois caninos.
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efvilha
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sexta-feira, julho 28, 2006
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quinta-feira, 27 de julho de 2006
Chronos, devorador de vidas e de sonhos. - 7

(Parte 7)
Era um almoço que antecedia uma partida. Não havia o mesmo clima de alegria do almoço da véspera, mas, nem por isso ele foi menos prazeroso; haviam delícias a serem degustadas, tudo resultado da imensa cordialidade com que fomos recebidos por esses novos amigos. Somente não foi tão demorado. Assim que pode, meu pai, ajudado certamente, começou a preparar a nossa volta.
Assim que tudo ficou pronto, partimos. Sabíamos o que nos esperaria na volta, e todos ali bem o compreendiam.
Leonor nos acompanhou até a porteira que dava acesso à estrada. Abriu-a. Quando passamos, ela a fechou e se colocou sentada na parte mais alta da mesma. Dali nos acenava e, aos gritos, nos desejava boa viagem, e pedia por breve regresso. Viu-nos desaparecer na primeira curva.
Como meu pai havia previsto, fomos parados várias vezes. Recebia novas encomendas, e procurava, da melhor maneira possível, fazer com que seguíssemos nossa viagem para casa. O cavalo, depois confirmou meu pai, reconhecia o caminho de volta, e apressava a marcha. Assim, chegamos em casa com alguma claridade da tarde que há muito declinara. Enquanto minha mãe e irmã preparavam o jantar, nós, os homens, preparamos a carroça para que papai pudesse voltar ao seu trabalho junto com a madrugada seguinte.
Passaram-se os meses. Em todas as vezes que meu pai fazia o itinerário que atingia a casa de Leonor, de lá trazia bilhetes e cartinhas. Foi ela, Leonor, quem iniciou essa troca de cartinhas e bilhetes; vários e várias a cada viagem. A primeira cartinha, dizia ela, a escrevera assim que retornara à sua casa. Depois que nos viu desaparecer na curva da estrada, ela ficou sentada por muito tempo onde estava, dizia, pensando em tudo o que acontecera nesses dois dias. Depois, retornara à casa e pôs-se a escrever aquela que seria a primeira das muitas cartas e bilhetes que eu dela receberia. Já nessa primeira cartinha ela dizia contar os dias até que ali fôssemos novamente. A todas eu respondia, mesmo sentindo-me um pouco desconcertado com a minha um tanto desleixada caligrafia, se comparada ao capricho das suas letras.
Era um outro ano. Depois de postergar algumas vezes, por motivos justos e variados, meu pai, finalmente, conseguiu levar-nos novamente à casa de Leonor. Não haveria justificativas dessa vez. Aconteceria o casamento do primo mais velho de Leonor que, quando lá fomos, já estava noivo. A noiva, pelo que sabíamos, morava em São Paulo, para onde a família se mudara algum tempo atrás. Ele se casaria e, depois, iria para a capital, para ali tentar uma outra vida.
Tomadas todas as providências, e o almoço tendo sido preparado bem mais cedo, partimos assim que almoçamos e as coisas foram sendo arrumadas. Era perto do meio-dia da sexta-feira. Havia uma razão, desta vez, para que fôssemos na sexta, e não no sábado. Papai, por saber como ninguém preparar assados, era freqüentemente convidado para conduzir essa parte da cozinha nos festejos de casamentos de parentes e conhecidos, o que fazia com o maior desvelo, prazer, e capricho. Haveria muito que fazer, numa parte da noite dessa sexta-feira, e por todo o dia seguinte até o jantar do casamento. Era esperado um grande número de pessoas.
Habitualmente, nesses casos, ainda mais quando se tratava de pessoas que moravam no campo, os vizinhos e convidados enviavam grande número de aves gordas, leitões, partes de cabritos, e outras carnes, para que a festa fosse de todos, animada, e houvesse farta alimentação para os parentes e convidados que viessem de muito longe. Assim, muitas festas chegavam a iniciar já na sexta-feira, véspera do casamento, e só terminar, talvez, no domingo à noite.
As bebidas eram consumidas numa quantidade assustadora. Lembro-me de pilhas e pilhas de sacos contendo cervejas e refrigerantes. Os padrinhos, e os convidados mais abastados, faziam questão de doarem sacos e mais sacos de bebidas. Essas, vinham em grossos sacos de aniagem, contendo sessenta garrafas em cada saco. Cada garrafa era envolvida por uma espécie de cartucho de palha de trigo ou outro material semelhante, densamente costuradas entre si, e que protegiam cada garrafa. Haviam os homens que tinham enorme prática de cuidar das bebidas; de refrescá-las, e cuidar dos vasilhames que deveriam ser devolvidos aos fornecedores, intactos. E faziam isso com enorme prazer. Eram festas memoráveis.
No casamento do primo da Leonor, portanto, quando lá chegamos, embora fosse a véspera do mesmo, já havia um delicioso clima de festa que havia começado logo pela manhã.
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efvilha
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quinta-feira, julho 27, 2006
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